Marcou minha infancia:

As profundezas das águas da Praia do Gi guardam parte de um capítulo que por muito pouco não teve proporções catastróficas. A 300 metros da beira da praia, há 30 anos, o navio grego Malteza S encalhou. A carga de milho e óleo se espalhou pelos mares logo depois e quase comprometeu a bacia hidrográfica da região. É considerado um dos maiores desastres ambientais da história catarinense. O fato, ocorrido em 25 de maio de 1979, é apenas uma parte da história lagunense para os jovens. Aos antigos, que presenciaram o episódio, um verdadeiro presente de grego para a Cidade Juliana.
Prefeito de Laguna na época, Mário José Remor conta que um dos maiores problemas foi conter o vazamento da carga, que colocava em risco as belezas naturais da cidade e também o meio de sobrevivência de parte da população. “Deu trabalho. Assim que vi que estava encalhado, a grande preocupação é que se o casco rachasse e o milho e o óleo pegassem as areias atingiriam as pedras mais bonitas. Os depósitos se arrebentaram. Era milho e óleo do Gi até o Mar Grosso”, lembra.
Segundo Mário José, os trabalhos para a contenção e a ajuda vinda de fora foram providenciais para que o pior não acontecesse. “Recebemos auxílio para que a sujeira não entrasse no canal da barra dos Molhes. Se isso ocorresse, acabaria com a pesca do camarão. Acho que acabaria com o sustento de cinco mil famílias, por causa da pesca. Veio ajuda até de São Paulo. Na época, ninguém conhecia aquelas boias utilizadas para a contenção de óleo”, diz o prefeito lagunense entre 1977 e 82.
O Malteza seguia carregado de milho de Buenos Aires, na Argentina, até a Itália, quando encalhou na área lagunense. Foram oito toneladas de milho e 450 toneladas de óleo. Um desvio na rota, que o fez navegar na costa catarinense, teria sido proposital, para evitar um naufrágio. “Era um navio velho e o capitão não permitia que ninguém entrasse nele. Disse que era preciso esperar a seguradora”, conta Remor. Os gregos estariam de olho na indenização pelo acidente.
Depois do encalhe, o Malteza chegou a ganhar o rótulo de amaldiçoado. Isso porque morreram três que trabalhavam na remoção do milho. Estragada, a carga fermentou e provocou intoxicação nos mergulhadores. Em um avião pequeno, duas pessoas também vieram a falecer. Em um rasante, a aeronave tocou um cabo que segurava a embarcação presa na praia. “Dizem até que, anos depois, um surfista morreu por causa do Malteza, mas isso não posso afirmar”, diz Mário José, de 71 anos.
Na época desenhista da Codisc, Dalmo Faísca guarda os retratos do navio de 147 metros de comprimento encalhado em Laguna. “A maldição é uma bobagem, é o povo que fala. Foi muito milho. Durante uns dois ou três anos depois do ocorrido ainda dava para ver os grãos na areia. Na época veio muita gente de Tubarão ver o navio, a BR-101 tinha sido aberta há pouco tempo”, comenta o senhor de 77 anos.
Cidade Juliana foi notícia em todo o país
Não apenas pelo impacto ambiental, mas também por questões diplomáticas, o Malteza S encalhado fez com que os olhos do país mirassem Laguna. “Os gregos não deixavam que entrássemos no navio. Falamos com o Itamaraty e, com a ajuda do juiz Erwin Teixeira e do comandante da Capitania dos Portos Danilo Plácido Camilo, conseguimos falar com o comandante da embarcação para saber da situação”, lembra o ex-prefeiro Mário José Remor.
O trio teve o auxílio do comerciante Georgios Damianos Andreades, que mora em Laguna até hoje. “Ainda bem que tínhamos ele como intérprete, era difícil se comunicar. Toda a tripulação era grega. Foi um pouco difícil de lidar com eles. Mas dias depois teve a Festa de Santo Antônio (padroeiro do município) e estavam todos lá, numa boa”, comenta Mário José.
Por conta das proporções do encalhe, na mesma semana o milho escapou dos compartimentos de carga. O óleo vazou 25 dias depois. A sujeira e as complicações atraíram jornalistas de todo o Brasil. Laguna era notícia nacional. “No meu gabinete tive que colocar jornais pelo chão. As pessoas chegavam com os pés molhados”, diz o ex-prefeito. “A prefeitura não teve gastos significativos no episódio. Recebemos muita ajuda, emprestaram máquinas, veio gente até de São Paulo. Chegaram a lavar a Pedra do Frade com água e sabão”, complementa.
A embarcação foi desmontada pela seguradora e continuou exposta. Com o auxílio, o balneário estava pronto para receber os veranistas da região e não sofreu reflexo negativo na atividade turística. O que sobrou do Malteza S ficou exposto ainda por cerca de 15 anos, quando o tempo se encarregou de apagar as marcas do episódio triste. “Com o balanço do mar, a areia do fundo do oceano soterrou o navio. Como pode enterrar assim? Em 94, ainda dava para ver uma ponta do mastro”, lembra Dalmo Faísca.
Fonte: Jornal Diário do Sul
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